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O Pote Vazio

Há muito tempo, na China, vivia um menino chamado Ping, que adorava flores. Tudo o que ele plantava florescia maravilhosamente. Flores, arbustos e até imensas árvores frutíferas desabrochavam como por encanto.

Todos os habitantes do reino também adoravam flores. Eles plantavam flores por toda a parte e o ar do país inteiro era perfumado.

O imperador gostava muito de pássaros e outros animais, mas o que ele mais apreciava eram as flores. Todos os dias ele cuidava de seu próprio jardim.
Acontece que o imperador estava muito velho e precisava escolher um sucessor.
Quem podia herdar seu trono? Como fazer essa escolha?
Já que gostava muito de flores, o imperador resolver deixar as flores escolherem.
No dia seguinte, ele mandou anunciar que todas as crianças do reino deveriam comparecer ao palácio. Cada uma delas receberia do imperador uma semente especial. – Quem provar que fez o melhor possível dentro de um ano – ele declarou – será meu sucessor.
A notícia provocou muita agitação. Crianças do país inteiro dirigiram-se ao palácio para pegar suas sementes de flores.
Cada um dos pais queria que seu filho fosse escolhido para ser o imperador, e cada uma das crianças tinha a mesma esperança.
Ping recebeu sua semente do imperador e ficou felicíssimo. Tinha certeza de que seria capaz de cultivar a flor mais bonita de todas.
Ping encheu o vaso com terra de boa qualidade e plantou a semente com muito cuidado.
Todos os dias ele regava o vaso. Mal podia esperar o broto surgir, crescer e depois dar uma linda flor.
Os dias se passaram, mas nada crescia no vaso. Ping começou a ficar preocupado. Pôs terra nova e melhor num vaso maior. Depois transplantou a semente para aquela terra escura e fértil. Esperou mais dois meses e nada aconteceu. Assim se passou o ano inteiro.
Chegou a primavera e todas as crianças vestiram suas melhores roupas para irem cumprimentar o imperador. Então correram ao palácio com suas lindas flores, ansiosas por serem escolhidas.
Ping estava com vergonha de seu vaso sem flor. Achou que as outras crianças zombariam dele por que pela primeira vez na vida não tinha conseguido cultivar uma flor.
Seu amigo apareceu correndo, trazendo uma planta enorme:
- Ping, disse ele, você vai mesmo se apresentar ao imperador levando um vaso sem flor? Por que não cultivou uma flor bem grande como a minha?
- Eu já cultivei muitas flores melhores do que a sua, disse Ping.
- Foi essa semente que não deu nada.
O pai de Ping ouviu a conversa e disse:
- Você fez o melhor que pôde, e o possível deve ser apresentado ao imperador.
Ping dirigiu-se ao palácio levando o vaso sem flor.
O imperador estava examinando as flores vagarosamente, uma por uma. Como eram bonitas! Mas o imperador estava muito sério e não dizia uma palavra.
Finalmente chegou a vez de Ping. O menino estava envergonhado, esperando um castigo. O imperador perguntou:
- Por que você trouxe um vaso sem flor?
Ping começou a chorar e respondeu:
- Eu plantei a semente que o senhor me deu e a reguei todos os dias, mas ela não brotou. Eu a coloquei num vaso maior com terra melhor, e mesmo assim ela não brotou. Eu cuidei dela o ano todo, mas não deu nada. Por isso hoje eu trouxe um pote vazio. Foi o melhor que eu pude fazer.
Quando o imperador ouviu essas palavras, um sorriso foi se abrindo em seu rosto e ele abraçou Ping. Então ele declarou para todos ouvirem:
- Encontrei! Encontrei alguém que merece ser imperador!
- Não sei onde vocês conseguiram essas sementes, pois as que eu lhes dei estavam todas queimadas. Nenhuma delas poderia ter brotado. Admiro a coragem de Ping, que apareceu diante de mim trazendo a pura verdade. Vou recompensá-lo e torná-lo imperador deste país.

Moral da História:
-É preciso ter coragem para seguir com a verdade, mas com certeza o caminho da verdade é sempre recompensado, por mais doloroso que seja.
-Todo mundo só quer mostrar o melhor de si para os outros, mas faz bem de vez em quando deixar nossas muralhas caírem e mostrar nossas fragilidades para as pessoas que nos apoiam.
-Quando a gente faz o melhor que pode, de certa forma, sempre colhemos bons frutos.



Incertezas

By Sil Oliveira

Incertezas, riscos, escolhas e possibilidades ... a vida é preenchida com planos que podem ou não ser bem sucedidos.
No plano da imaginação, podemos antever as possibilidades, no entanto, não significa que obteremos êxito, pois imaginar e planejar é ter uma falsa sensação que estamos no controle de tudo.
Há algo maior que nós que está no controle, cabe a nós fazermos as escolhas e confiar nessa Força Maior que uns nomeiam de Deus, outros de Destino, Universo, ou de acordo com sua crença.
Nossas experiências bem sucedidas ou não, acontecem em prol do nosso conhecimento, e da evolução da nossa espécie.
Investimos o nosso presente no futuro com a possibilidade de frustrarmos nossas expectativas ou surpreendermos com o rumo inesperado dos resultados que colhemos do nosso investimento.
Conforme Edgar Morin, NÃO ensinaram-nos sobre as incertezas na escola, pois aprendemos tudo que é lógico e exato, como as leis da física e fórmulas matemáticas. Hoje, há uma preocupação maior em assimilar o jogo das certezas e das incertezas, pois faz-se necessário mostrar por meio de nossas experiências o surgimento do inesperado.
Mesmo mergulhados nas incertezas, necessitamos munir-nos de estratégias para adquirirmos resiliência para lidarmos com o inesperado e coragem para seguirmos adiante.
Cabe agora citar um trecho dos "Setes Saberes" de Edgar Morin¹:


“A incerteza é uma incitação à coragem. A aventura humana não é previsível, mas
o imprevisto não é totalmente desconhecido. Somente agora se admite que não se conhece
o destino da aventura humana. É necessário tomar consciência de que as futuras decisões
devem ser tomadas contando com o risco do erro e estabelecer estratégias que possam ser
corrigidas no processo da ação, a partir dos imprevistos e das informações que se tem.”


¹ Edgar Morin é filósofo francês, escritor do livro: 
Os sete Saberes Necessários à Educação do Futuro 3a. ed. - São Paulo - Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2001.

Simplicidade



Está inerente à condição do ser humano reclamar, isso porque segundo o teórico Maslow, a auto-realização é inalcançável.  
Mesmo quando estamos no caminho certo em direção aos nossos objetivos, as reclamações da rotina acabam que nos vencendo.
Há um lado positivo em tudo, até mesmo no ato de reclamar, pois reclamar leva-nos à reflexão, e a reflexão leva-nos pensar no que está errado e o que pode ser melhorado, porém as vezes reclamamos que o fardo está pesado demais.
Certa vez, uma amiga disse me que a vida é muito simples os seres humanos que a complicam e quando o fardo estiver muito pesado  permita-se ser carregado no colo por Deus.  Parece uma frase “clichê” mas devemos buscar incessantemente  viver plenamente, porque essa vida é tão curta para nos apegarmos às pequenas coisas.
Realmente, é este um grande desafio, viver plenamente com leveza diante tantas cobranças e principalmente auto-cobranças. No entanto, é um alívio saber que não estamos sozinho mesmo diante desse mundo tumultuado cheio de egoísmo.
Um dia, cedo ou tarde chegaremos à conclusão que o que importa e o que nos pertence é o presente, e o que levamos dessa vida são as coisas boas que fizemos, os frutos que produzimos.
É necessário e benéfico nos questionarmos  sobre o que estamos fazendo de bom para as outras pessoas. Precisamos tomar cuidado para não se contaminar com o egoísmo. É evidente que a maioria das pessoas só se importam consigo mesmo e pelos interesses próprios. Só pensam em ostentar luxo, manter as aparências, ganhar muito dinheiro. É lamentável,  ver que estas pessoas na verdade são infelizes, mas falar e criticar não adianta em nada, melhor fazer uma tentativa de dar algum exemplo positivo, já que um exemplo vale mais que mil palavras.
Algumas pessoas buscam fazer o bem pela profissão, pois encontram sentido na vida embora isso não seja privilégio de todos. Pode ser até uma utopia e contraditório, querer se realizar profissionalmente e conseguir sobreviver nesse mundo capitalista mas isso não significa que devemos parar de lutar diante desse desafio.
Por outro lado, muitas vezes buscamos realizar coisas grandiosas sendo que as coisas simples podem ser muito mais significativas. Está faltando isso na vida das pessoas: Dar valor as coisas mais simples da vida.










Globalização x Intolerância



"Todos os homens nascem iguais e todos têm o mesmo direito"
Declaração dos Direitos Humanos

Conforme professor Eduardo de Freitas, a globalização é um fenômeno social que como o próprio termo sugere ocorre em escala global. Esse processo consiste em uma integração em caráter econômico, social, cultural e político entre diferentes países.

Este fenômeno apresenta suas vantagens e desvantagens:
Entre algumas vantagens estão: Economia integrada, avanços na tecnologia, telecomunicações, transportes, etc.
A facilitação da troca de informações entre nações e culturas  viabiliza o avanço e o compartilhamento de conhecimento.
E entre as diversas desvantagens estão: As desigualdades sociais fundamentados em regionalismo e xenofobia.
De acordo com Freitas, a globalização é a fase mais avançada do capitalismo. Com o declínio do socialismo, o sistema capitalista tornou-se predominante no mundo. Com isso, o sistema capitalista beneficia àqueles que são mais ricos que por sua vez se tornam cada vez mais ricos, e os que são miseráveis ainda mais miseráveis, sem as mesmas oportunidades daqueles que são privilegiados por receber uma melhor educação e através disso receber uma melhor colocação no mercado de trabalho.
É fato que a globalização promoveu uma série de avanços e melhorias técnicas em várias partes do mundo. No entanto, analisando por outro ponto de vista as desigualdades sociais persistem e muitas vezes ocorrem movimentos contrários à globalização fundamentados em regionalismo e xenofobia. Este é um caminho contrário ao da Evolução Humana.

Entende-se por xenofobia, qualquer aversão ou preconceito àquilo que é estrangeiro. Em algumas ocasiões a xenofobia poderá ser confundida com sentimento de patriotismo.
Para o filósofo Edgar Morin, é necessário que haja uma mudança de mentalidade. O homem precisa se enxergar como parte da natureza e compreender que como parte da mesma natureza, temos a mesma Condição Humana que não distingue entre raça, religião e nação.
A compreensão da Diversidade Humana é a chave contra a intolerância. É preciso que haja a aceitação do outro, que não é melhor ou pior porém, diferente.
Não pode-se permitir que a intolerância tome uma dimensão maior como no passado. O mesmo sentimento de superioridade de um grupo ideológico como o Nazismo pôs fim à vida de milhares de judeus. Lamentavelmente, atitudes nazistas como estas ainda estão presentes na sociedade, quando um homossexual é agredido, quando um nordestino é assediado com piadas infames, índios expulsos de suas terras para beneficiar os brancos etc... Infelizmente, esse “etc” quer dizer que há milhares de exemplos de comportamentos de segregação na sociedade.
De fato, a intolerância é um dos maiores desafios a ser superado pela humanidade.  Através de uma revolução da Educação pode ser possível realizar uma revolução da interpretação de mundo, do espírito de cidadania e mudança de comportamentos que trazem um retrocesso à Evolução Humana.
 
Fonte de pesquisa: http://www.brasilescola.com/geografia/globalizacao.htm
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000.

Filosofia


Prof. José J. F. Lara
 
         Gostaria primeiramente de observar que fui solicitado para uma conversa e não para uma conferência. Isso me deixou muito à vontade, pois, conversa supõe diálogo e o diálogo é como que a casa  da Filosofia,  desde os seus primórdios. Sócrates foi um mestre do diálogo e Platão nos legou “Diálogos”. Pretendo, pois, quanto possível dialogar e não monologar. Peço, assim, que as minhas palavras iniciais sejam encaradas como um convite ao diálogo e não como uma conferência.
 
1.      O que é filosofia? Para que filosofar?
 
No mundo pragmático em que vivemos, a filosofia parece não servir para absolutamente nada. Ela não consta das rubricas orçamentárias, não tem dotação , não recebe verbas específicas... Mal consta dos currículos escolares e os filósofos são, em sua maioria, uns ilustres desempregados...
 
No entanto, ela serve, ou melhor, comanda tudo. Está presente em qualquer decisão séria que tomamos, em qualquer estratégia que implantamos. Pode-se dizer que ela é onipresente. Conforme Jaspers (1977. p.13) a filosofia é imprescindível ao homem. Está sempre presente e manifesta nos provérbios tradicionais, em máximas filosóficas correntes, em condições dominantes, quais sejam, por exemplo, a linguagem e as crenças políticas”.
 
         É interessante notar que as grandes crises históricas foram férteis em pensamento filosófico. Após a grande crise européia conseqüente à invasão dos bárbaros, surgiram as grandes sínteses da Idade Média. A revolução copernicana que deu origem ao mundo moderno fez aparecerem as filosofias  racionalistas. À Segunda Guerra Mundial seguiu-se o existencialismo...Nosso mundo, nosso país estão certamente em crise. Estamos sentados sobre um vulcão que ameaça explodir. E já se esboçam linhas novas de concepção filosófica.
 
           Haverá uma relação necessária entre crise e filosofia? De certo. A crise produz o que os gregos denominavam “thaumásia”, ou seja, admiração, pasmo, espanto que eles apontavam como sendo a origem do pensar filosófico. Jaspers (ib) acrescenta que a consciência do que ele chama “situações-limite” – ter  de morrer, ter de sofrer, ter de lutar, estar sujeito ao acaso e incorrer inelutavelmente em culpa - também nos leva a filosofar. Não será porque esta consciência nos põe  também ela em crise, causando  espanto ou pasmo, a thaumásia dos gregos?
 
 Poderíamos, talvez, dizer que a crise gerando o espanto ou pasmo, torna-nos conscientes de nossa fragilidade física, intelectual, social ou moral, levando-nos a encarar a realidade como um problema na acepção que lhe dá Julián Marías (apud Saviani, l980. p.20) de situação dramática em que se está e não se pode mais continuar, exigindo, assim , uma solução. Ou seja, a crise, transformada em problema, desperta a reflexão ou “ato de retomar, reconsiderar os dados disponíveis, vasculhar numa busca constante de significado” (Saviani, 1980. p 23). Quando esta reflexão se torna, acrescenta Saviani (ib) radical, rigorosa e global ou de conjunto nasce a filosofia.
 
         Ao dizermos reflexão radical, devemos entender a expressão  em seu sentido literal: trata-se de uma reflexão que vá à raiz dos problemas, buscando atingir suas últimas e mais profunda ramificações. Quando dizemos que a reflexão deve ser rigorosa, entendemo-la como sistemática e metódica. A reflexão deve ser ainda global ou de conjunto, isto é, realizada de modo a abarcar todos os dados, de modo a não deixar escapar nenhum fio condutor no difícil trabalho de discernir no emaranhado das raízes as imbricações fundamentais.
 
         Resumindo, podemos com Saviani (1980. p.27) afirmar que a filosofia é uma reflexão radical, rigorosa e de conjunto sobre os problemas que a realidade apresenta”.
 
 
Já se vê que a filosofia é, antes de mais nada, uma atitude e uma tarefa das quais resultam “filosofias” como produto. Atitude ou disposição de amor à verdade, que supõe, sobretudo, muita humildade e nenhuma arrogância de espírito, como afirma Jaspers (1977. p 14), ao explicar o significado, a um tempo etimológico e histórico,  do termo: A palavra grega ‘philósophos’ foi formada em oposição a ‘sophós’ e significa “o que ama o saber”, em contraposição a ao possuidor de conhecimentos  (dono da verdade) que se designava por sábio. Este sentido da palavra manteve-se até hoje: é a demanda da verdade e não a sua posse que constitui a essência da filosofia...”
          
Das crises, portanto, surgem as filosofias como fruto da necessidade humana de compreender a realidade e de fundamentar a ação que visa a transformá-la.
 
 Será a filosofia algo de intermitente, que apenas de vez em quando desponta ao longo da história? Não, pois a história é - e cada vez mais - uma longa e funda  crise na qual há, certamente, períodos mais dolorosos e enfáticos, mas que por sua contínua e surpreendente novidade  está sempre a nos chocar, suscitando-nos, em conseqüência, uma atitude constante de reflexão e de busca. A filosofia é, assim, onipresente, pois, se  ninguém escapa ao mundo e à história, ninguém, a não ser por demência, escapa  à crise: “Não se pode fugir à filosofia. Pode-se perguntar apenas se ela é consciente ou inconsciente, boa ou má, confusa ou clara. Quem recusa a filosofia está realizando um ato filosófico de que não tem consciência” (Jaspers, 1977. p.13).
          
A afirmação final de Jaspers não faz mais que atualizar o velho argumento aristotélico: “Ou se deve filosofar, ou não se deve filosofar. Se não se deve filosofar, isto só em nome de uma filosofia. Portanto, mesmo que não se deva filosofar, deve-se filosofar(cf. Bochenski, 1973. p. 23).
        
“Me philosophetéon, philosophetéon”, declarava Aristóteles: mesmo que não se deva filosofar, deve-se filosofar. Não há  como fugir à filosofia. É verdade que nem todos têm condições de estabelecer uma reflexão que vá até as raízes, que siga com rigor um método, que possua todos os dados necessários a uma visão de conjunto da realidade, sobretudo se considerarmos que esses dados se avolumam e complexificam, à medida que avançam as ciências. Todos tentam, entretanto, consciente ou inconscientemente, com os recursos de que dispõem, com as informações que têm à mão, dar uma resposta aos problemas fundamentais, explicar as “situações-limite”, dar um sentido à vida e à realidade: todos, de algum modo, filosofam.
          
         Uma observação final  deve ser ainda  acrescentada: “Filosofar significa estar a caminho. As interrogações são mais importantes que as respostas e cada resposta se transforma em nova interrogação” (Jaspers, 1977. p 14). A filosofia é aberta, por mais que o filósofo pretenda dar respostas definitivas. A realidade é rebelde e não se deixa apanhar com facilidade em nossas redes de compreensão. É por demais complexa e dinâmica para que possamos emitir sobre ela uma palavra definitiva. Nem sempre – e isso ocorre com freqüência – consideramos todos os dados disponíveis ou  escolhemos as informações capazes de nos conduzirem à raiz mestra dos problemas ou das crises. Ou, então, quando parece que a atingimos, damo-nos conta de que ainda estamos na superfície e de que é necessário cavar mais fundo: “cada resposta se transforma em nova interrogação”. Não importa o esforço! É melhor seguir que estagnar. Além disso, não caminhamos sozinhos. O que não descobrimos, outros descobrem ou descobrirão e nossas chamas juntas tornarão o mundo, se não transparente, pelo menos mais claro!
 
         A filosofia é, pois, imprescindível. Não serve para nada e serve para tudo. Não há como negá-la: ela se impõe por si mesma!  Refugá-la, só deixando de ser o que somos: consciências que refletem num mundo em permanente crise, num constante devir.
 
  
II – Para que Filosofia da Educação?
 
         Talvez seja mais pertinente perguntar: para que filosofia na educação? A resposta é simples: porque educação é, afinal de contas, o próprio “tornar-se homem” de cada homem num mundo em crise.
 
         Não há como educar fora do mundo. Nenhum educador, nenhuma instituição educacional pode colocar-se à margem do mundo, encarapitando-se numa torre de marfim. A educação, de qualquer modo que a entendamos, sofrerá necessariamente o impacto dos problemas da realidade em que acontece, sob pena de não ser educação. Em função dos problemas existentes na realidade é que surgem os problemas educacionais, tanto mais complexos quanto mais incidem na educação todas as variáveis que determinam uma situação. Deste modo, a “Filosofia na educação” transforma-se em “Filosofia da Educação” enquanto reflexão rigorosa, radical e global ou de conjunto sobre os problemas educacionais. De fato, os problemas educacionais envolvem sempre os problemas da própria realidade. A Filosofia da Educação apenas não os considera em si mesmos, mas enquanto imbricados no contexto educativo.
 
         Penso que disto decorrem duas conseqüências muito simples, óbvias até! A primeira é que todo educador deve filosofar. Melhor ainda, filosofa sempre, queira ou não, tenha ou não consciência do fato. Só que nem sempre filosofa bem. A este respeito afirma Kneller (1972. p. 146): “se um professor ou líder educacional não tiver uma filosofia da educação, dificilmente chegará a algum lugar. Um educador superficial pode ser bom ou mau. Se for bom, é menos bom do que poderia ser e, se for mau, será pior do que precisava ser”.
 
         Que problemas no campo da educação exigem de nós  uma reflexão filosófica, nos termos acima explicitados? São muitos. Permitam-me apontar apenas alguns.
 
         Já que a educação é o processo de tornar-se homem de cada homem, é necessário refletir sobre o homem para que se possa saber o “para onde” se deve orientar a educação. É necessário, porém, que esta reflexão não seja unicamente teórica, abstrata, desencarnada. É preciso levar em conta a situação espácio-temporal em que ocorre o processo. Com efeito, não importa apenas o “tornar-se homem”, mas o “tornar-se homem hoje no Brasil”. Só desta forma podemos estabelecer com clareza o que, por exemplo, se tem convencionalmente chamado de “marco referencial”, a partir do qual, numa instituição educativa, currículo, planejamento e atividades podem atingir um mínimo de coerência e de eficiência. 
          
         Que teoria de aprendizagem adotar? Que métodos e técnicas utilizar? Já afirmavam Binet e Simon  correr  “o risco de um cego empirismo quem se conforma em aplicar um método pedagógico sem investigar a doutrina que lhe serve de alma”. Não há métodos neutros. Não há técnicas neutras. No bojo de qualquer teoria, de qualquer método, de qualquer técnica está implícita uma visão de homem e de mundo, uma filosofia. 
 
         A filosofia é, assim, norteadora de todo o processo educativo. O maior problema educacional brasileiro sempre foi e ainda  é, a meu ver, o denunciado por Anísio Teixeira no título de uma de suas obras principais: “Valores proclamados e valores reais na educação brasileira”. Quer em nível de sistema, quer em nível de escola, proclamamos  belíssimos princípios filosófico-educacionais. Na prática, entretanto, caminhamos ao sabor das ideologias e das novidades e – o que é pior – sem nos darmos conta da incoerência existente entre nossas palavras e nossos atos.
 
         A segunda conseqüência a ser tirada do que antes dissemos é que também o educando deve filosofar, ou seja, deve refletir sistematicamente, buscando as raízes dos  problemas - seus e  de seu tempo -  de modo a formar uma “visão de mundo” e adquirir criticamente princípios e valores que lhe orientem  a vida.  Só assim serão homens e não robôs. É preciso, pois, municiá-lo de instrumentos racionais e afetivos  para que se habitue a ser crítico, a não se contentar com qualquer resposta, a colocar sempre e em tudo uma pitada razoável de dúvida, a cavar fundo e não se intimidar perante a tarefa ingrata de estar sempre questionando e se questionando.
 
 A partir de minha já longa experiência de magistério, posso  afirmar que há sempre fome de filosofia. Basta levantar um problema nos termos acima descritos para que se alcem  as antenas, sobretudo as juvenis!  Talvez porque, tendo uma percepção não muito  nítida, mas agudamente sentida  da crise,  faltem aos jovens  o instrumental necessário  para explicitá-la,  analisá-la e julgá-la, em razão do banimento  a que assistimos da filosofia,  até mesmo de nossos currículos escolares.
 
Conclusão
 
         Não há, portanto, como fugir à filosofia no campo da educação. Ela se relaciona intimamente  com a função nem sempre levada a sério e, não obstante, fundamental, de avaliar. De fato, a avaliação  resume, de certo modo, ou acompanha, como um  vetor ou como um eixo orientador, todo o processo educacional. Ela se faz presente no início do processo, ao estabelecermos as metas; no seu decurso, quando traçamos e executamos as estratégias; no final, quando julgamos o que e quanto foi cumprido. Ora, avaliar é emitir juízos de valor e estes implicam sempre, queiramos ou não, consciente ou inconscientemente uma posição filosófica, uma filosofia.
 
 Uma palavra, talvez, resuma tudo o que tentamos dizer: a filosofia é o aval da educação!
 
         Referências bibliográficas  
 
BOCHENSKI, J. M. Diretrizes do pensamento filosófico. São Paulo: EPU, 1973. 119 p.
JASPERS, Karl. Iniciação filosófica. Lisboa: Guimarães, 1977. 173 p.
SAVIANI, Dermeval. Educação; do senso comum  à  consciência filosófica. São Paulo: Cortez, 1980. 224 p.
KNELLER, Georges. Introdução à filosofia da educação. 4.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1972. 167 p.
 
 Extraído de  Estudos Leopoldenses, São Leopoldo, v. 21, n. 85, p. 29-36. Revisado e modificado pelo autor em 18/02/2001

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